Apêndice do Gato
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Meu Deus, como a arte de escrever é difícil e como eu faço bem de não escrever senão para mim mesmo! À medida que vou enchendo estas minhas costaneiras de almaço, trezentas coisas que eu dantes não suspeitava, se me apresentam, - pequenos e grandes problemas de composição e de expressão, de lógica e de verdade, de método e de maneira. Enxergando-os, palpando-os, sentindo-os bulir sobre a lauda como insetos descobertos e espicaçados pelo bico da pena, surpreendo-me de os ver tão numerosos e tão estranhos; e gozo um indefinível prazer: o prazer de não ser obrigado por coisa nenhuma, a atormentar-me com eles.
Um exemplo de inadvertência galucha: falando de animais bonitos e nobres, dei a minha preferência, precipitadamente, depois do gato, ao cavalo e ao elefante. Entretanto, seria tão natural que tivesse refletido em que os vertebrados, geralmente, são belos e que os há tão encantadores como aqueles! Tanto mais quanto Remy de Gourmont, nas suas Dissociações, já o fizera notar.
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