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Louva-a-Deus

Amadeu Amaral (?–1929)

Biografia e memórias7 min de leitura6 páginas

O começo

Tivemos hoje, à ida, um inesperado companheiro de viagem. Não sei quando nem como se aboletou no carro; só foi notado ao levantar o voo do chapéu de um cavalheiro velho para ir pousar no seio de uma senhora gorda, copiando a abelha da pequena ode de Anacreonte. A senhora gorda enxotou-o, num gesto de susto muito gracioso, como convinha ao sexo. O bicharoco, executando um rápido voo plané, foi aterrar no ombro de um rapaz elegante. Este se apresentava para lhe desfechar um tiro com o dedo médio armado em aríete, quando ele se passou para as costas de um homem distraído, onde se deixou e o deixaram ficar.

Uma vaga de hilaridade desencadeou-se no bonde ao toque das asas daquele forasteiro. Todos lhe acompanhavam as evoluções com sorrisos. E alguns manifestavam na cara uma curiosidade lorpa, como se estivessem diante de um invento completamente novo. Porque essa hilaridade? Problema complicado e escuro. Lembro-me de Bergson, mas não vejo como aplicar ao caso a sua teoria. Até nova ordem, penso que o riso proveio apenas de que o bonde não é veículo para passageiros dessa classe; de que o lugar habitual onde imaginamos o louva-a-deus não é o bonde, não as ruas ladeadas de prédios, calçadas de pedras, atravancadas de carruagem e caminhões, riscadas de fios de metal e pontas de cimento, - e de que…

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