Embriaguez
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Viajou hoje no bonde um homem embriagado, meio dormindo. Quando chegamos ao ponto, no centro, todos descemos, e ele ficou. O condutor foi interrogá-lo, ver porque não descia. Sacudiu-o. "Ó amigo, já chegamos! Ó amigo…" O bêbedo abriu um olho, ergueu a cabeça, e deixou-a tombar de novo sobre o peito. "Ó amigo! então não desce? Ó amigo…" O ébrio tornou a abrir um olho, fixou-o no condutor, e murmurou: "Toca o bonde." - "Mas olhe que tem de pagar outra passagem! Ó cidadão! está ouvindo? Tem de pagar outra passagem!" - "Sim!" berrou o homem. "Sim! eu pago outra passagem! Toque essa porcaria! Siga! Eu pago quanto você quiser. Olhe, tome!" E estendeu ao condutor uma prata de dez tostões.
Quando o condutor lhe restituía o troco, o beberrão, já manso, fez um gesto trêmulo de repulsa amigável. "Guarde para você, guarde lá… ouviu? Mas olhe aqui, condutor, mande tocar mais devagar nas curvas… sim? É só o que eu lhe peço. Mais devagarinho nas curvas!" E o ébrio recostou-se, acomodou-se, cruzou as mãos sobre os joelhos e fechou os olhos, como se estivesse na mais fofa poltrona, debaixo de um teto amigo.
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