Um Conselho
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
Os nossos patriotas voltam a incomodar-se com as caricaturas que os jornais do Rio da Prata publicam, criticando coisas do Brasil.
A histeria patriótica se zanga com a coisa, expectora desaforos, brame e o Zé Povo pensa logo em agarrar as mausers da Intendência da Guerra, marchar sobre Buenos Aires e puxar as orelhas do desenhista.
Não sei porque semelhante aborrecimento; é verdade que o patriotismo é intolerante, por isso não pode permitir a mais ligeira crítica às coisas do seu culto ou um julgamento mais azedo.
Se lá aparecem desenhos em que o Brasil figure com pretos, os sábios cá de casa vociferam que aqui não há pretos.
Os diplomatas encarregam-se até de mandar os desenhos tidos como ofensivos para o Itamarati e a Secretaria do Exterior, pressurosa, envia-os aos jornais.
Eu trabalhava no Fon-Fon quando, com grande espanto meu, vi chegar um emissário do senhor Rio Branco, trazendo um desenho que quase desencadeou em guerra entre o Brasil e a Argentina.
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