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O Bonde

Amadeu Amaral (?–1929)

Biografia e memórias7 min de leitura6 páginas

O começo

Quando ia tomar o meu bonde, hoje pela manhã, o meu vizinho Dr. Viegas passou no seu Dodge e atirou-me. num gesto, a fisga de um convite. Hesitei um pouco, e afinal optei pelo bonde. O Dr. Viegas partiu.

Entrei no carro elétrico, conquistei um lugar no último banco, e só depois que me vi instalado e refestelado é que me ocorreu dirigir a mim próprio esta interpelação: "Por que será que recusei o automóvel? Porque preferi o bonde?" A resposta não foi imediata nem rápida; veio porém, e aqui a reduzo a conserva:

"Preferi o bonde porque não tenho pressa. E não quero ter pressa, porque estou contente, e o contentamento em mim propende naturalmente à lenteza das degustações silenciosas e chuchurreadas. Trago a alma numa pacificação pessoal e cantante, num desses estados de harmonia orgânica que crescem de dentro para fora, como uma florescência, sem se saber porque, e por isso mesmo são mais doces. Para fruir esta eufórica disposição, preciso de estar só. E a melhor maneira de estar só é ainda achar-se no meio de uma quantidade grande de estranhos. Sentimo-nos, assim, não apenas insulados, mas diversos. Duplo círculo de segregação. Solidariedade enfestada. - E eis aí a única forma de solidariedade…

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