Folha Rota
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Tinham dado ave-marias; a Sra. D. Ana Custódia saiu para ir levar umas costuras à loja que era na Rua do Hospício. Pegou das costuras, entrouxou-as, pôs um xale às costas, um rosário ao pescoço, deu cinco ou seis ordens à sobrinha e caminhou para a porta.
— Venha quem vier, não abras, disse ela com a mão no ferrolho; já sabes o costume.
— Sim, titia.
— Não me demoro nada.
— Venha cedo.
— Venho, que a chuva pode cair. O céu está preto.
— Oh! titia, se roncar trovoada!
— Reza; mas eu volto já.
D. Ana persignou-se e saiu.
A sobrinha fechou a rótula, acendeu uma vela e foi sentar-se a uma mesa de costura.
Luísa Marques tinha dezoito anos. Não era um prodígio de beleza, mas não era feia; pelo contrário, as feições eram regulares, as maneiras gentis. O olhar meigo e cândido. Mediana de estatura, delgada, naturalmente elegante, tinha proporções para vestir bem e primar pelos adornos. Infelizmente, não tinha adornos nem os vestidos eram bem cortados. Pobres, já se vê que deviam ser. Que outras coisas seriam os vestidos de uma filha de operário, órfã de pai e mãe, condenada a coser para ajudar a sustentar a casa da tia! Era um vestido de chita grossa, cortado por ela mesma, sem arte nem inspiração.
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