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O Destino da Literatura

Lima Barreto (1881–1922)

Crítica literária24 min de leitura21 páginas

O começo

É a primeira vez que faço o que nós brasileiros convencionamos chamar conferência literária. Na forma que nós o naturalizamos é um gênero de literatura fácil e ao mesmo tempo difícil e isto porque ele não só exige de quem o cultiva saber nas letras, habilidade no tratar o assunto, elegância na exposição, mas também porque impõe outras qualidades ao conferencista, que, quase de nenhum valor, para o sucesso, nas demais modalidades de atividade literária, são, entretanto, capitais e indispensáveis para nele se obter um bom resultado.

Pede tal gênero ao expositor desembaraço e graça distinção de pessoa, capricho no vestuário e - quem sabe lá? - beleza física e sedução pessoal. É o critério nacional de que tenho muitas provas nas torturas por que têm passado aqueles meus amigos e confrades aos quais Deus galardoou com tão raras virtudes.

Explico-me.

O meu belo camarada Olegário Mariano canta as cigarras com voz melhor, menos estridente e mais suavemente amorosa do que aquela com que esses insetos o fazem quando inspirados pelos crepúsculos aloirados do estio. Ele possui, em alto grau, a segunda série de qualidades do bom conferencista, a que acima aludi. O auditório de suas conferências é monopolizado pelas moças e senhoras. Sabem o que lhe tem acontecido? Olegário Mariano vê-se de tempos, a esta parte atrapalhado para guardar em casa, caixinhas, caixas, caixões de cigarras secas que as suas admiradoras, do Amazonas ao Prata, lhe mandam insistentemente. É um verdadeiro pesadelo.

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