Livros › Coelho Neto › Sertão (Coelho Neto, 1926)

Capa de Sertão (Coelho Neto, 1926)

Sertão (Coelho Neto, 1926)

Coelho Neto (?–1934)

Direito28 min de leitura24 páginas

O começo — O enterro

Outubro. O sol, em pleno, alargava por todo o campo uma luz fixa e cáustica. Não havia sombra – tudo resplandecia e um tédio morno, pesado, de preguiça, parecia apoderar-se das próprias coisas, prendendo-as em imobilidade, de onde nem mesmo o bulir das folhas tirava o doce murmúrio, tão agradável ao ouvido de quem trabalha sob a rude prancha da soalheira estiva.

Nas escarpas, esterilmente nuas, cabras berravam melancólicas e, de momento a momento, um boi magro surgia entre as palhas secas dos milhos, lento, estafado, banzeiro, esticava o pescoço esfolado pela canga e mugia, ficando depois com o focinho à altura das praganas louras, contemplativo e tristonho, a olhar o céu.

Por baixo, num largo planalto de terra vermelha, limpa de fresco, recentemente dredada, uma charrua arrastava-se ao passo tardo de dois touros.

Do céu quente, sob a radiação nevrótica do sol, caia uma paz cansada, e na vasta planície nua, toda de rastolho, ceifada de extremo a extremo, erguia-se apenas um casebre tosco, baixo, metido dentro de um cercado, à sombra quieta de ramalhoso mangueiral.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Coelho Neto