Turbilhão
Coelho Neto (?–1934)
O começo — I
Revistas as últimas provas do conto de Aurelio Mendes, o Anacharsis dos «Idyllios pagãos», Paulo Jove arredou a cadeira e pôs-se de pé, desabafando. Doia-lhe a espinha e, como havia fumado quase todo o maço de cigarros, tinha a boca amarga e áspera, os olhos ardidos, não só do fumo e da claridade intensissima das lampadas elétricas, como da fixidez atenta em que os mantinha desde as sete e meia até aquela hora alta da noite.
Curvou-se com as mãos nas ilhargas, dimpeto esticou os braços, arrojou-os para a frente com um ahn! surdo de atleta que exercita os músculos entorpecidos e desabou-os depois, com força, sacudindo-se todo, virando, revirando a cabeça, como em ânsia angustiosa. Ergueu-os de novo acima da cabeça, as mãos juntas, estrincando os dedos enclavinhados e bocejou, espichando-se nas pontas dos pés caindo depois, rijamente, sobre os tacões.
Já as primeiras páginas haviam descido para a clichagem. Embaixo, martelavam pancadas crebas, como de matracas. A caldeira reboava num retroar soturno de caverna que repercutisse, sem descontinuar, o gorgorejo possante de águas encachoeiradas.
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