Mistério do Natal
Coelho Neto (?–1934)
O começo — I
Era a hora silenciosa e triste do crepúsculo.
Abrumados de ouro os montes, em duros perfis, esmaltavam de negro o horizonte abrasado. Abriram-se as primeiras estrelas. Subiam da terra, como o fumo das aras, panos alvos de névoa.
Pelos caminhos esbarrondados, em áspero aclive, beirando gotas espontadas de cardos, urna ao ombro, as túnicas arrepanhadas à cinta, desfilavam donzelas conversando e rindo.
Juntas, em passo miúdo, trepidando nas pedras, com um cheiro de suarda e de silvas, passavam nas trilhas ovelhas em rebanho. Um rude e mazorro pastor seguia-as cabisbaixo.
Esbatiam-se as nuvens de ouro quando José e Maria apareceram no limiar da casa prontos para a longa jornada, por vales e montanhas, em direção à terra farta de Belém onde iam cumprir a lei de Augusto.
Fechada a porta ainda demoraram um instante sob a vinha, contidos pela saudade.
O homem, por fim, decidiu-se, tomou a frente, vagaroso, pensativo e logo, limpando os olhos que as lágrimas nublavam, a donzela surgiu.
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