Modéstia (Amadeu Amaral)
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Franklin Penha dera-me hoje a impressão de um grande fátuo. Viu-me no bonde e cumprimentou-me com excessiva amabilidade, com regozijada surpresa, como se tivesse descoberto em mim, de repente, algum encanto inédito. E eu nem sequer tinha a barba feita. O motivo não tardou a aparecer. O que Franklin pretendia era capturar a minha atenção e boa vontade para uma notícia de jornal que trazia recortada, no bolso, e lhe pesava como uma barra de ouro. A notícia era mais ou menos a seguinte:
"O Senhor Doutor Franklin da Costa Penha, conceituado advogado do nosso foro e futuroso cultor do nosso passado, acaba de ser nomeado sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de…, por indicação, unanimemente aprovada, do eminente historiógrafo brasileiro Sr…."
- "Parabéns, bichão."
- "Oh!"
Apesar desse oh! Franklin estava realmente satisfeito, mais talvez do que o seu venerando xará depois que eripuit fulminen, etc. Guardou o retalho na carteira, quase a afagá-lo com as pontas dos dedos, como se fosse um aéreo tecido de seda; arrumou a carteira no bolso e, confidencial e grave:
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