Fernando e Fernanda
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Tinham os mesmos nomes. Cresceram juntos, à sombra do mesmo amor materno. Ele era órfão, e a mãe dela, que o amava como se ele fora seu filho, tomou-o para si, e reuniu os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo coração. Eram quase irmãos, e sê-lo-iam sempre completamente, se a diferença dos sexos não viesse, um dia, dizer-lhes que um laço mais íntimo podia uni-los.
Um dia, tinham ambos quinze anos, descobriram os dois que se amavam, e mais do que se amam irmãos. Esta descoberta foi feita durante uma troca de olhares e um contato de mãos.
— Fernanda! disse ele.
— Fernando! respondeu ela.
O resto foi dito nessa linguagem muda e eloquente, em que o maior ignorante faz prodígios de retórica, retórica do coração, retórica universal.
Mas o amor, sobretudo o amor calouro, como era o dos meus heróis, tem o inconveniente de supor que todo o resto da humanidade está com os olhos tapados e os ouvidos surdos, e que ele pode existir só para si, invisível e impalpável.
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