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Bagatela

Machado de Assis (1839–1908)

Contos24 min de leitura21 páginas

O começo — I

Um dia do mês de maio de 1842, numa das últimas janelas de uma casa, que forma a esquina da rua Hautefeuille e da rua Serpente, estava encostado um moço pensativo e melancólico.

Era — para usar da expressão da Torre de Nesle — uma bela cabeça que mais de uma rapariga teria visto passar em seus sonhos. Não uma bela cabeça, à maneira dos keepsakes mas a pálida e inteligente fisionomia que se encontra muitas vezes nas obras de Lemud e em seu mestre Volfrand, além de outras; bem o sabeis, leitor, este ouvinte atraente e grave do primeiro plano.

Percebia-se a vida da alma através do invólucro do corpo; e depois de contemplar aquele rosto que revelava o trabalho interior, não podia haver engano, e era força exclamar: — É um artista ou um poeta.

Henrique de Auberseint era com efeito uma e outra coisa. Poeta, ele o era, como todas as criaturas felizmente dotadas e maravilhosamente organizadas para o sofrimento. Porquanto a alma do homem inteligente, o coração do poeta, do artista ou do filósofo, é um alaúde que vibra harmonioso e sonoro ao sopro de todas as paixões humanas, grandes, fortes e belas.

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