Até Mirassol
Lima Barreto (1881–1922)
O começo — I
A CONVITE de meu amigo e confrade Dr. Ranulfo Prata, clínico nessa localidade de Mirassol, que fica nos confins de S. Paulo, atraído também pelo seu nome pitoresco, embarquei para ela, na Central, em 1 de abril.
Tomei logo lugar no vagão de 1.a classe - uma hora antes da partida. É meu primeiro aborrecimento não caber o meu calhambeque de mala debaixo do banco. Prevejo que terei que viajar com o azedume do companheiro de defronte, por causa do tropeço que ela lhe vai causar às pernas.
Ei-lo que chega. É um rapaz simpático. Tem ar de ser de origem italiana. Possui mesmo uma forte cabeça romana. Fico contente, tanto mais que não se aborrece com a mala. Ainda bem. Tendo eu ficado nos bancos que estão imediatamente próximos à porta, o vis-à-vis é obrigatório.
Há, portanto, ainda dois lugares disponíveis. Olho a plataforma. Há uma agitação que não é do meu gosto. Até automóveis com malas postais e medas de jornais e revistas penetram nela. Vejo passar uma família de imigrantes em fila índia, guardando a escala de crescimento e da hierarquia doméstica. Na frente o pai, carregando um grande saco, curvado; depois, a mulher, com um bebê ao colo; seguem-se os filhos e filhas, na ordem da idade, carregando sacos, O último, uma criança de seis anos, de um louro sujo, leva na mão esquerda um saco e, na direita, erguida, uma garrafa quebrada.
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