À Margem do "Coivara", de Gastão Cruls
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
Dizem os dicionários que "coivara" e uma fogueira de gravetos. É possível que o professor Assis Cintra tenha outra opinião; mas tal coisa não vem ao caso, tanto mais que não me preocupo com essas coisas transcendentes de gramática e deixo a minha atividade mental vagabundar pelas ninharias do destino da Arte e das categorias do pensamento.
Admitindo a velha definição dos dicionários, no livro do Sr. Gastão Cruls, que tem como título essa palavra de origem tupaica, não há positivamente "coivara", pois nele não se queimam só gravetos. Queimam-se grossas perobeiras e duros jacarandás. Os contos que o compõem, não são delgados galhos secos, há alguns que são verdadeiras toras de cerne.
O Sr. Gastão Cruís é médico, mas, graças a Deus, não escreve no calão pedante dos seus colegas. Escreve como toda a gente, naturalmente procurando os efeitos artísticos da arte de escrever, mas escreve sem o Elucidário de Viterbo e o Blutteau, nas mãos, e - que concubinato! - sem ter diante dos olhos o redundante padre Vieira e o enfático Herculano.
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