Os Animais Iscados da Peste
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Mal que espalha o terror e que a ira celeste / Inventou para castigar / Os pecados do mundo, a peste, em suma, a peste, / Capaz de abastecer o Aqueronte num dia, / Veio entre os animais lavrar; / E, se nem tudo succumbia, / Certo é que tudo adoecia. / Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento, / Catava mais nenhum sustento. / Não havia manjar que o apetite abrisse, / Raposa ou lobo que saísse / Contra a presa inocente e mansa, / Rola que à rola não fugisse, / E onde amor falta, adeus, folgança!
O leão convocou uma assembleia e disse: / «Sócios meus, certamente este infortúnio veio / A castigar-nos de pecados. / Que o mais culpado entre os culpados / Morra por aplacar a cólera divina. / Para a comum saúde esse é, talvez, o meio. / Em casos tais é de uso haver sacrificados; / Assim a historia no-lo ensina. / Sem nenhuma ilusão, sem nenhuma indulgencia, / Pesquizemos a consciência. / Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão, / Devorei muita carneirada. / Em que é que me offendera? em nada. / E tive mesmo ocasião / De comer igualmente o guarda da manada. / Portanto, se é mister sacrificar-me, pronto. / Mas, assim como me acusei, / Bom é que cada um se acuse, de tal sorte / Que…
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