Podem Fazer?
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
Não são só os escritores militares que fazem apologia da guerra, muitos civis de outras condições a fazem também. Recordo-me ainda que ultimamente um pregador brasileiro, muito respeitado pelos seus talentos e conhecimentos religiosos chegou, num rapto de eloquência, a asseverar que a guerra era divina.
Embora não seja eu ateu de todo e não tenha os conhecimentos do senhor Cunha Pedrosa, que quer um dia feriado, para os brasileiros dar graças a Deus, como se não houvesse dia, hora e minuto em que eles tal não façam, quando lhes acontece alguma boa ou escaparam de alguma má; embora não seja como o eminente senador conterrâneo do senhor presidente, tenho para mim que não é coisa muito cristã chamar-se a guerra de coisa de Deus.
A última guerra parece me dar razões para isso, mas se não fossem somente os fatos propriamente guerreiros como a morte ou inutilização de milhões de homens, etc., etc., bastavam as consequências dela que agora se estão verificando.
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