O Caminho da Porta
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — CENA I CENA I
VALENTIM - Ah! és tu?
DOUTOR - Oh! Hoje é o dia das surpresas. Acordo, leio os jornais e vejo anunciado para hoje o Trovador. Primeira surpresa. Lembro-me de passar por aqui para saber se D. Carlota queria ir ouvir a ópera de Verdi, e vinha pensando na triste figura que devia fazer em casa de uma moça do tom, às 10 horas da manhã, quando te encontro firme como uma sentinela no posto. Duas surpresas.
VALENTIM - A triste figura sou eu?
DOUTOR - Acertaste. Lúcido como uma sibila. Fazes uma triste figura, não to devo ocultar.
VALENTIM (irônico) - Ah!
DOUTOR - Tens ar de não dar credito ao que digo! Pois olha, tens diante de ti a verdade em pessoa, com a diferença de não sair de um poço, mas da cama e de vir em traje menos primitivo. Quanto ao espelho, se o não trago comigo, há nesta sala um que nos serve com a mesma sinceridade. Mira-te ali. Estás ou não uma triste figura?
VALENTIM - Não me aborreças.
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