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No Primor da Elegância

Lima Barreto (1881–1922)

Contos6 min de leitura5 páginas

O começo

— Pois foi mesmo uma coisa que não sei como qualificar.

— Mas, nunca tinhas jogado?

— Tinha; mas, em família, a vinte e dez réis o tento. Assim a sério, nunca! E ainda por cima ficar devendo dois contos… Livra!

— Já os pagaste?

— Não; não foi preciso.

— Que diabo! Não te entendo!

— Queres ouvir a história tintim por tintim?

— Quero.

— Pois então ouve lá.

— Estou ouvindo:

— Andava eu muito arrebentado, devido a minha mania poética. Tinha empenhado os meus vencimentos - uma grande parte, bem entendido - a um agiota, para publicar o meu poema Luzes no Nevoeiro . Lembras-te?

— Lembro-me. Por sinal que…

— Não fez lá grande feio, até… Bem! Continuo: assim, encalacrado, o que restava dos vencimentos, era para comer e morar. Pacientemente, até com grande orgulho íntimo, por me ter heroicamente sacrificado às letras, eu ia passando me­ses, quando certo dia o meu colega de repartição, Segadas, perguntou-me: "Oh! Barcelos! Você nunca jogou no bicho?" Fiz um esforço de memória e respondi: "Uma vez, há muito tempo". Segadas não se contentou com a minha resposta e disse-me ainda: "Escreva aí, num papel, um número de quatro algarismos, qualquer, compreendeu?' "Para que é?" perguntei. "Ora!" fez ele rindo-se. "Você sabe bem para o que é. Querem ver que você está se fazendo de tolo comigo?" Desconfiei…

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