O Caminho de Damasco
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Eram duas horas da tarde de um dia de junho, dia de magnífico inverno, nem frio, nem chuva, nem sol. Nem sol, é maneira de dizer; o astro-rei dominava o céu com todo o esplendor dos seus raios; mas os raios eram temperados e brandos. Não era certamente um sol para aquecer lagartixas, mas não o podia haver melhor para quem atravessasse pedestremente o Campo da Aclamação.
A Rua do Ouvidor tinha, então, o movimento do costume. Gente parada em frente ou sentada dentro das lojas, gente que descia, que subia, homens, senhoras, de quando em quando uma vitória ou um tílburi, tudo isso dava à principal rua do Rio de Janeiro um aspecto animado e luzido. Viam-se aqui e ali alguns deputados, trocando notícias políticas ou admirando as senhoras que passavam, coisa muito mais deliciosa que uma discussão a respeito do orçamento da guerra, assunto em que, nesse momento, estava falando o respectivo ministro na Câmara. Também ali estava uma grande parte da áurea juventude — la jeunesse dorée —, comentando o acontecimento do dia ou encarecendo a beleza da moda. Estranharia…
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