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Muitos Anos Depois

Machado de Assis (1839–1908)

Contos30 min de leitura26 páginas

O começo — I

Tinha vinte e sete anos o Padre Flávio, quando começou a carreira de pregador para a qual se sentia arrastado por uma vocação irresistível. Teve a felicidade de ver começada a sua reputação desde as primeiras prédicas, que eram ouvidas com entusiasmo por homens e mulheres. Alguns inimigos que a fortuna lhe dera por confirmação do seu mérito, diziam que a eloquência do padre era insossa e fria. É pena dizer que esses adversários do padre vinham da sacristia, e não da rua.

Bem pode ser que entre os admiradores do Padre Flávio alguns fossem mais entusiastas das suas graças que dos seus talentos — para ser justo, gostavam de ouvir a palavra divina proferida por uma graciosa boca. Efetivamente o Padre Flávio era uma soberba figura; a sua cabeça tinha uma forma escultural. Se a imagem não ofende os ouvidos católicos, direi que parecia Apolo convertido ao Evangelho. Tinha magníficos cabelos pretos, olhos da mesma cor, nariz reto, lábios finos, a testa lisa e polida. O olhar ainda que sereno, tinha uma expressão de severidade, mas sem afetação. Aliavam-se naquele rosto a graça profana e a austeridade religiosa, como duas coisas irmãs, dignas igualmente da…

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