Coisas do Jogo do "Bicho"
Lima Barreto (1881–1922)
O começo
Há alguns anos, mantendo estreitas relações com o proprietário de uma tipografia, na rua da Alfândega, tinha ocasião de passar por ela toda a tarde, demorar-me, a fazer isto ou aquilo, nas mais das vezes conversar unicamente.
Aos poucos fui tomando conhecimento com o pessoal; e, em breve, era de todos camarada. A tipografia do meu amigo tinha a especialidade de imprimir jornais de "bicho" e ele mesmo editava um - O Talismã - que desapareceu.
Era tão rendosa essa parte de sua indústria tipográfica que ele destacava um único tipógrafo para executá-la. O encarregado dessa obra, além de compor os jornais, redigia-os também, com o cuidado indispensável em tais jornais-oráculos de por, sob este ou aquele disfarce de seções, de chapinhas, de palpite deste ou daquela, todos vinte e cinco animais da rifa do Barão.
Conversando mais detalhadamente com o tipógrafo dos jornalecos de bicho, ele me deu inúmeras informações sobre os seus periódicos "zoológicos". O Bicho, o mais famoso e conhecido, dava de lucro, na média, 50 mil-réis por dia, quase o subsídio diário de um deputado naquele tempo; A Mascote e O Talismã, se não forneciam um lucro tão avultado, rendiam mais, por mês, que os vencimentos de um chefe de seção de secretaria, naqueles anos, a regular por aí assim, em setecentos e poucos mil-réis.
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