Post-Facio
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Meu amigo. Agora que o leitor frio e severo pôde comparar o meu pobre livro com a tua critica benévola e amiga, deixa-me dizer-te rapidamente duas palavras.
Recordaste os nossos amigos, poetas na adolescência, hoje idos para sempre dos nossos olhos e da gloria que os esperava. Tão piedosa evocação será o palladium do meu livro, como o é a tua carta de recomendação.
Vai longe esse tempo. Guardo a lembrança dele, tão viva como a saudade que ainda sinto, mas já sem aquelas ilusões que o tornavam tão doce ao nosso espirito. O tempo não corre em vão para os que desde o berço foram condenados ao duelo infausto entre a aspiração e a realidade. Cada ano foi uma lufada que desprendeu da arvore da mocidade, não só uma alma querida, como uma ilusão consoladora.
A tua pena encontrou espressões de verdade e de sentimento para descrever as nossas confabulações de poetas, tão serenas e tão intimas. Tiveste o condão de transportar-me a essas praticas da adolescência poética; lendo a tua carta pareceu-me ouvir aqueles que hoje repousam nos seus túmulos; e ouvindo dentro de mim um ruido de aplauso sincero às tuas expressões, affigurava-se-me que eram eles que te aplaudiam, como no outro tempo, na tua pequena e faceira salinha.
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