Reticências (Amadeu Amaral)
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Encontrei-me hoje no bonde, depois do almoço, com o Nicolau Coelho. Como eu lhe dissesse, um dia, que lera com prazer a sua crônica sobre finados, desse dia em diante se aproximou de mim, e não me vê sem que me venha apertar a mão. Ainda hoje pagou a minha passagem.
Conheço Nicolau desde menino, fui amigo de seu pai, professor gratuito de um dos seus irmãos, e nunca se julgara obrigado a usar de cortesias comigo. Passei a ser alguém para ele no dia em que lhe elogiei uma crônica, a ele que tantas e tão aplaudidas tem escrito, a ele carregado de glórias.
Nicolau, vendo-me no último banco, ergueu-se do seu e desfechou-se de lá. Sacou de cinco tiras de papel e disse, com modéstia:
- "Isto é curtinho… Gostaria que lesse, preciso da sua opinião."
Fixei os meus olhos nos seus.
- "Precisa da minha opinião?"
- "Sim pois…"
- "Mas isso é grave, meu amigo. Então a minha opinião vale?"
- "Muito."
- "Nesse caso, eu necessitaria ler com vagar, com toda a atenção."
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