O Protocolo
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — CENA I CENA I
ELISA - Está meditando?
VENÂNCIO (como que acordando) - Ah! perdão!
ELISA - Estou afeita à alegria constante de Lulu, e não posso ver ninguém triste.
VENÂNCIO - Exceto a senhora mesma.
ELISA - Eu!
VENÂNCIO - A senhora!
ELISA - Triste, por que, meu Deus?
VENÂNCIO - Eu sei! Se a rosa dos campos me fizesse a mesma pergunta, eu responderia que era falta de orvalho e de sol. Quer que lhe diga que é falta de… de amor?
ELISA (rindo-se) - Não diga isso!
VENÂNCIO - Com certeza, é.
ELISA - Donde conclui?
VENÂNCIO - A senhora tem um sol oficial e um orvalho legal que não sabem animá-la. Há nuvens…
ELISA - É suspeita sem fundamento.
VENÂNCIO - É realidade.
ELISA - Que franqueza a sua!
VENÂNCIO - Ah! é que o meu coração é virginal, e portanto sincero.
ELISA - Virginal a todos os respeitos?
VENÂNCIO - Menos a um.
ELISA - Não serei indiscreta: é feliz.
VENÂNCIO - Esse é o engano. Basta essa exceção para trazer-me um temporal. Tive até certo tempo o sossego e a paz do homem que está fechado no gabinete sem se lhe dar da chuva que açoita as vidraças.
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