O Soneto (Amadeu Amaral)
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Se eu tivesse de fazer perante o vigário uma confissão minuciosa, raspando as voltas mais fundas do meu ser, não encontraria de certo explicação para o fato de o soneto de Gabriela me haver tornado, hoje, ao espírito- não à lembrança apenas, ao espírito, à alma. Só posso dizer que, ao vir-me o condutor cobrar a passagem, nem o senti chegar, estava absorvido na segunda quadra.
A vida é um céu que uma só vez se estrela; / toda estrelada e rutilante a viste…
Não me satisfizeram estes versos, nem como ideia nem como forma. Chamar céu à vida é sempre extravagância; demais, um céu que só se estrela uma vez, não pode ser senão um céu de papel pintado. A construção "a viste" era ambígua para o ouvido. Por fim, o período não dava liga. Modifiquei-o:
Contudo, a vida forte boa e bela:
sorriu-te, tanto quanto lhe sorriste.
Podia servir. O diabo era a continuação. Eu não tinha, na verdade, a mínima ideia assentada acerca do caso psicológico de Gabriela, nem sequer sabia que forma e que alma teria essa emanação possível do meu cérebro. Ao contrário de Minerva ao sair da cabeça de Júpiter, estava completamente desarmada. E nem mesmo queria acabar de sair. As casualidades da versificação é que me diriam afinal o que eu houvesse de pensar a respeito. Grande coisa, a versificação.
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