O Soneto (II)
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Deus de misericórdia, como eu tenho pena dos poetas, meus irmãos! Apesar de ser eu o pobre da irmandade.
Pelo trabalho que me tem custado o soneto que empreendi há três meses, calculo as torturas em que voluntariamente se enredam os que ainda fabricam esses objetos de arte.
Dizem, que há indivíduos que sonetizam com facilidade, sem prejuízo da perfeição. Não descreio disso. Mas essa espontaneidade para fazer um soneto só se adquire depois de muito e duro labor de aprendizagem e prática do soneto. Também os ginastas fazem com a máxima facilidade e economia de esforço os mais complicados e arriscados giros no trapézio, na barra e nas argolas, - e isso está muito longe de provar que tais habilidades lhe sejam naturais como a nós outros o uso do guarda-chuva ou o trepar no estribo dos bondes.
Quanto a mim, vou desistir de concorrer aos futuros florilégios. Mas, em vez de fazer como o outro, que despreza essa forma de poesia, alegando que é velha de seiscentos anos, que o mundo está cheio de sonetos, e que os sonetistas são muito mais numerosos do que os poetas, continuo a achar que a fabricação deste gênero de peças é um útil e nobre exercício de engenho, além de ser o mais justificável dos quebra-cabeças.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.