A Vala
Guilherme de Azevedo (?–1882)
O começo
Trazei mortos à vala; a hidra está com fome / E deve ser-lhe longa a hora em que não come! / Olhae como ela mostra aqueles que a vão ver, / Inerte, sem pudor, de fauce escancarada, / A amargura cruel da boca desdentada / Que pede de comer!
Lançae ao monstro informe algum repasto novo! / Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo. / Tranzido pelo frio ou morto pelo sol! / E visto haver na fera abismos insondáveis / Mandae-lhe as legiões dos grandes miseráveis / Que morrem sem lençol!
Eu quero vê-la farta, a lúgubre pantera, / Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera / A preza que lhe inveja a gula dos chacaes. / Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa / Da triste procissão cruel e dolorosa / Que vem dos hospitais.
Um velho esquife chega: em duas taboas toscas / Um pobre semi-nú coberto já de moscas, / Num riso deixa ver não sei que tons cruéis! / Enquanto nos sorria a luz das noites belas, / Talvez que ele varresse a lama das vielas / E o lixo dos bordéis!…
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