História Simples
Guilherme de Azevedo (?–1882)
O começo
Havia um rapaz são, robusto, bom, valente, / De espadua larga e rija; um ceifador gentil. / Cavava todo o dia, andou sempre contente / E a feria dava à mãe sem falta de um ceitil.
Ele amava a campina e os céus largos, serenos. / Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis. / Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos, / Na fragrância do trevo, ao pé dos cães fieis.
A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas: / Num cerro agreste e vil alguns palmos de chão. / E tinha ainda mais não sei quantas crianças / Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.
O pai mal se sustinha às vezes sobre as pernas: / Era bêbado e mau, batia na mulher; / E à noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas, / Cantava canções vis de a gente ensurdecer.
Um dia uma senhora honesta da cidade, / Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir, / Reparou no rapaz; achou-lhe própria a idade / E fez-lhe um certo gesto:—o moço não quis ir.
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