A Mãe (Guilherme de Azevedo)
Guilherme de Azevedo (?–1882)
O começo
Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto / Na pálpebra vermelha a lágrima damor, / Que vem de Eva a Maria—a doce mãe de Christo— / Formando a stalactite imensa de uma dor!
Oh, quantas vezes já naldeia miserável / Nas tristezas do campo, às portas dos casais, / Vos tenho surpreendido, em extasi adorável, / Em quanto os filhos nus ao peito conchegaes!
A fria noite chega. Os maus, de boca cheia, / Rebolam-se na terra: ainda pedem pão! / Com eles repartis a vossa parca ceia; / E vendo-os a dormir podeis sorrir então.
Dinverno quase sempre as noites são mordentes. / Uivam lobos na serra: o vento uiva também: / Mas eles vão dormindo os longos sonos quentes, / Em quanto a vil insônia oprime a pobre mãe!
Tendes sustos cruéis. Temendo que lhes caia / A roupa que os abafa, aos pobres acudis; / E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias / Podeis então dormir um tanto mais feliz.
Mulher quanto é suave e longo esse poema / Quanto é preciso ó mãe, no trânsito cruel, / Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema / A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!
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