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Valério

Machado de Assis (1839–1908)

Contos38 min de leitura34 páginas

O começo — I

Valério era fluminense; veio à luz com a revolução de 1831. O pai estava no campo, enquanto ele nascia humildemente, entre as lágrimas de sua mãe e os cuidados de uma velha comadre . Quando o pai voltou à casa, encontrou esse aumento na família. Beijou o filho, consolou a mulher, comeu alguma coisa, e foi passar a noite num dos clubes do tempo.

A paternidade é anterior à sociedade; mas os amores novos fazem esquecer os velhos, e a paixão política domina, em certos casos, os primeiros instintos da natureza.

Nascido entre lágrimas, foi Valério criado entre penas. O pai, que era um pobre militar, não tinha recursos de sobra para deixar à família, e morreu pouco depois da revolução. A mãe educou como pôde o pequeno até à idade de sete anos; a pobre senhora morreu sem poder vê-lo num colégio. Valério passou então à casa do padrinho, que era um general conhecido naquele tempo por suas façanhas e mentiras, mas no fim de contas boa alma e amigo de ser-vir. O general mandou ensinar ao afilhado os primeiros rudimentos da língua e um pouco de latim. Vendo os progressos do pequeno, determinou mandá-lo estudar direito, e nesse propósito estava quando faleceu sem testamento. Os poucos bens que tinha caíram…

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