Livros › Machado de Assis › As Academias de Sião

Capa de As Academias de Sião

As Academias de Sião

Machado de Assis (1839–1908)

Contos12 min de leitura10 páginas

O começo

Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve academias: mas suponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.

I

As estrelas, quando viam subir, através da noite, muitos vagalumes cor de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas às outras, perguntavam:

--Reaes suspiros, em que é que se ocupa esta noite o lindo Kalaphangko?

Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:

--Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião; trazemos conosco toda a sabedoria do universo.

Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrelas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e eles tomaram conta de uma parte do espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.

Deu logar, a essa enorme ascensão de pensamentos o fato de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema:--porque é que há homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a índole do jovem rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo nele respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, atitudes moles e obedientes e um cordial horror às armas. Os guerreiros siamezes gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram danças, comedias e cantigas, à maneira do rei que não cuidava de outra cousa. Daí a ilusão das estrelas.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Machado de Assis