Visão (Machado de Assis)
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Vi de um lado o Calvario, e do outro lado / O Capitolio, o templo-cidadela. / E torvo mar entre ambos agitado, / Como se agita o mar numa procela.
Pousou no Capitolio uma águia; vinha / Cansada de voar.
Cheia de sangue as longas azas tinha; / Pousou; quis descansar.
Era a águia romana, a águia de Quirino; / A mesma que, arrancando as chaves ao destino, / As portas do futuro abriu de par em par. / A mesma que, deixando o ninho áspero e rude, / Fez do templo da força o templo da virtude, / E lançou, como emblema, a espada sobre o altar.
Então, como se um deus lhe habitasse as entranhas, / A vitória empolgou, venceu raças estranhas, / Fez de varias nações um só domínio seu. / Era-lhe o grito agudo um tremendo rebate. / Se caía, perdendo acaso um só combate, / Punha as azas no chão e remontava Anteo.
Vezes três, respirando a morte, o sangue, o estrago, / Sahio, lutou, caiu, ergueu-se… e jaz Cartago; / É ruína; é memoria; é tumulo. Transpõe, / Impetuosa e audaz, os vales e as montanhas. / Lança a férrea cadeia ao colo das Hespanhas. / Gallia vence; e o grilhão a toda Italia põe.
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