
Iaiá Garcia
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Luís Garcia transpunha a soleira da porta, para sair, quando apareceu um criado e lhe entregou esta carta:
"5 de outubro de 1866.
"Sr. Luís Garcia — Peço-lhe o favor de vir falar-me hoje, de uma a duas horas da tarde. Preciso de seus conselhos, e talvez de seus obséquios. — Valéria".
— Diga que irei. A senhora está cá no morro?
— Não, senhor, está na rua dos Inválidos?
Luís Garcia era funcionário público. Desde 1860 elegera no lugar menos povoado de Santa Teresa uma habitação modesta, onde se meteu a si e a sua viuvez. Não era frade, mas queria como eles a solidão e o sossego. A solidão não era absoluta, nem o sossego ininterrompido; mas eram sempre maiores e mais certos que cá embaixo. Os frades que, na puerícia da cidade, se tinham alojado nas outras colinas, desciam muita vez, — ou quando o exigia o sacro ministério, ou quando o governo precisava da espada canônica, — e as ocasiões não eram raras; mas geralmente em derredor de suas casas não ia soar a voz da labutação civil. Luís Garcia podia dizer a mesma coisa; e, porque nenhuma vocação apostólica o…
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