O Caso Barreto
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
— Sr. Barreto, não falte amanhã, disse o chefe de seção; olhe que temos de dar essa cópia ao ministro.
— Não falto, venho cedo.
— Mas, se vai ao baile, acorda tarde.
— Não, senhor, acordo cedo.
— Promete?
— Acordo cedo, deixe estar, a cópia fica pronta. Até amanhã.
Qualquer pessoa menos advertida afirma logo que o amanuense Barreto acordou tarde no dia seguinte, e engana-se. Mal tinham batido as seis horas, abriu os olhos e não os fechou mais. Costumava acordar às oito e meia ou nove horas, sempre que se recolhia às dez ou onze da noite; mas, andando em teatros, bailes, ceias e expedições noturnas, acordava geralmente às onze horas da manhã. Em tais casos, almoçava e ia passar o resto do dia na charutaria do Brás, Rua dos Ourives. A reputação de vadio, preguiçoso, relaxado, foi o primeiro fruto desse método de vida; o segundo foi não andar para diante. Havia já oito anos que era amanuense; alguns chamavam-lhe o marca-passo. Acrescente-se que, além de…
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