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Galeria Póstuma

Machado de Assis (1839–1908)

História13 min de leitura11 páginas

O começo

Não, não se descreve a consternação que produziu em todo o Engenho Velho, e particularmente no coração dos amigos, a morte de Joaquim Fidelis. Nada mais inesperado. Era robusto, tinha saúde de ferro, e ainda na véspera fora a um baile, onde todos o viram conversado e alegre. Chegou a dançar, a pedido de uma senhora sexagenaria, viúva de um amigo dele, que lhe tomou do braço, e lhe disse:

—Venha cá, venha cá, vamos mostrar a estes criançolas como é que os velhos são capazes de desbancar tudo.

Joaquim Fidelis protestou sorrindo; mas obedeceu e dansou. Eram duas horas quando saiu, embrulhando os seus sessenta anos numa capa grossa,—estávamos em junho de 1879—metendo a calva na carapuça, acendendo um charuto, e entrando lepidamente no carro.

No carro é possível que conchilasse; mas, em casa, mau grado a hora e o grande peso das pálpebras, ainda foi a secretária, abriu uma gaveta, tirou um de muitos folhetos manuscritos,—e escreveu durante três ou quatro minutos umas dez ou onze linhas. As últimas palavras eram estas: «Em suma, baile chinfrim; uma velha gaiteira obrigou-me a dançar uma quadrilha; à porta um crioulo pediu-me as festas. Chinfrim!» Guardou o folheto, despiu-se, meteu-se na cama, dormiu e morreu.

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