Conto Alexandrino
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
— O que, meu caro Stroibus? Não, impossível. Nunca jamais ninguém acreditará que o sangue de rato, dado a beber a um homem, possa fazer do homem um ratoneiro.
— Em primeiro logar, Pythias, tu omittes uma condição:— é que o rato deve expirar debaixo do escalpello, para que o sangue traga o seu principio. Essa condição é essencial. Em segundo logar, uma vez que me apontas o exemplo do rato, fica sabendo que já fiz com ele uma experiencia, e cheguei a produzir um ladrão…
— Ladrão autêntico?
— Levou-me o manto, ao cabo de trinta dias, mas deixou-me a maior alegria do mundo:— a realidade da minha doutrina. Que perdi eu? um pouco de tecido grosso; e que lucrou o universo? a verdade imortal. Sim, meu caro Pythias; esta é a eterna verdade. Os elementos constitutivos do ratoneiro estão no sangue do rato, os do paciente no boi, os do arrojado na águia…
— Os do sábio na coruja, interrompeu Pythias sorrindo.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.