O ABC da Moça Queimada
Sílvio Romero (?–1914)
O começo
A trinta do mês de outubro / Do ano de trinta e um, / Ardi em chamas de fogo / Sem haver remédio algum.
Ai! de mim triste coitada, / Que truce tão cruel sina. / De passar pela desgraça / Neste mundo tão menina!
Bem conheço de certeza / Que foi por Deus esta morte, / Assim quis o criador, / Permitiu a minha sorte.
Cuando no mundo nasci / Foi para morrer queimada; / De Deus a sina no mundo / Não pode ser revogada.
Deus como de piedade / Tenha de mim compaixão: / Foi tal a minha desgraça. / Que morro sem confissão.
Eu conheço de certeza / Que só por Deus poderia / Eu acabar desta sorte, / Morrer com tanta agonia.
Fazendo eu umas papas / Para um menino comer, / Oh! que caso tão cruel! / A mim veio acontecer.
Gritei por todos de casa / No estado em que me pus, / Pedindo que me acudissem / Pelas chagas de Jesus.
Hoje por me ver assim / Desenganada da vida / Já desejo que a minha alma / De Deus seja recebida.
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