Conversa Política entre um Corcunda e um Patriota
Sílvio Romero (?–1914)
O começo
C. — Deus lhe guarde, meu senhor.
P. — Venha com Deus, cavaleiro, / Venha, logo me dizendo / Se é corcunda ou brasileiro. / Vejo-lhe divisado / Na cabeça um grande galho, / Bem me parece ser / Da vazante o espantalho.
C. — Sim senhor, eu sou corcunda / E morro pelo meu rei; / Esta divisa que trago / É da sua real lei. / Se o senhor é patriota, / Provisório cidadão, / Se fala contra o meu rei, / É judeu, não é cristão. / E com isto já me vou, / Não quero mais esperar; / O senhor é jacobino / Pelo modo de falar.
P. — Dê-me atenção, senhor, / Não se faça esforecido; / Um homem apaixonado / Não dá prova de entendido. / Eu conheço o seu caráter, / Não é de tolo e vário, / Mostrar ser de pensante, / Ou de um escriturário. / Faça-me a honra apelar, / Venha-me dar um clarão; / Só o senhor pode dizer-me / O que é a Constituição, / E também da Independência / De Dom Pedro Imperador; / Tudo me explique agora, / Eu lhe peço por favor.
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