ABC de Amores
Sílvio Romero (?–1914)
O começo
Aqui te mando, benzinho, / Um A B C de amores, / Para que nele tu vejas / Os meus suspiros e dores.
Anda cá, meu doce bem, / Anda ver, prenda querida, / As queixas que tu me formas / Nos passos da minha vida.
Bem conheço, prenda minha, / Que a vida me deixaste, / Por sentires grande falta / Dum coração que me roubaste…
Cadeias foram teus olhos, / Grilhões os teus carinhos, / Que prenderam meus afetos / Entre os mais duros espinhos.
De cada vez que te vejo, / Se me dobram as prisões: / Eu juro me teres roubado / Duzentos mil corações.
Empenhei-me a experimentar / A dureza do teu peito: / Nasci forro, sou cativo, / Sou leal e até sujeito.
Feriste meu coração / Para nele seres ouvido; / Ficaste sendo senhora, / Eu fiquei sendo cativo.
Glória dos tempos passados, / Que tão depressa fugistes! / Que te faziam meus olhos, / Que vos fazem andar tristes?
He bem que chorem meus olhos / De uma dor que os atormenta; / Um sensível coração, / Pelos olhos arrebenta.
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