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A Igreja do Diabo

Machado de Assis (1839–1908)

História12 min de leitura11 páginas

O começo

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Porque não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destrui-las de uma vez.

--Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escriptura contra Escriptura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas predicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abrahão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Mahomet, nem Luthero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

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