Palavras Cruzadas
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
Veio à minha frente, ontem à tarde, um passageiro engolfado num sobretudo enorme e num largo jogo de palavras cruzadas. Espiei um pouco por cima, o homem percebeu o meu movimento, voltou-se, reconheci-o: era o meu ex-vizinho Eulálio Peixoto, professor de Matemática e de conformidade.
- "Pois até você, Peixoto!"
- "É para você ver, Felício. Mas quem pode resistir! Todo o mundo vive às voltas com isto. Ainda hoje vi uma senhora, com um livro aberto, no bonde, dentro do livro ia um retalho de papel - era o jogo. Tenho um conhecido que traz o seu dentro do chapéu. Outros o carregam na carteira e em qualquer momento de descanso, no bonde, no café, na esquina, lá se põem a decifrar. Curioso! A que é que você atribui esta mania?"
- "Gosto de quebrar a cabeça".
- "Está enganado. Isso é o que menos influi no caso. Quantidade desprezível. A vida toda, toda, desde as grandes até às ínfimas coisas, é um tecido de quebra-cabeças."
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