O Passado, o Passado
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Acabara o jantar às seis horas e meia. Era dia; a mor parte dos convivas descera à chácara. Um destes, o capitão-tenente Luís Pinto, ficou na sala a conversar com o dono da casa, o Comendador Valadares, homem gordo e pacato, para quem a digestão era coisa séria, e tanto ou quanto científica.
— E pretende fazer outra viagem? perguntou o comendador continuando a conversa interrompida pela sobremesa.
— Agora, não. Salvo se embarcar por ordem do governo. Não é provável que precise de outra licença; em todo caso, não iria à Europa, a não ser por moléstia.
— Mas gostou tanto que…
— Que preciso descansar. Estou com quarenta e dois anos, senhor comendador, não é velhice; mas também não é idade de travessuras; e uma segunda viagem era verdadeira travessura.
O comendador não aprovou nem contestou a observação do hóspede; abriu a caixa de rapé. Tomou uma pitada e interrogou o oficial de marinha a respeito de algumas particularidades da viagem. O oficial satisfez-lhe a curiosidade narrando-lhe uma página das suas memórias de turista.
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