Uma Águia sem Asas
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Era uma tarde de agosto. Caía o sol, e soprava um vento fresco e brando, como para compensar o dia, que estivera extremamente calmoso. A noite prometia ser excelente.
Se a leitora quer ir comigo ao Rio Comprido, entraremos juntos na chácara do sr. James Hope, comerciante inglês desta praça, como se diz em linguagem técnica.
James Hope viera para o Brasil em 1830, com pouco mais de 20 anos, e começou imediatamente uma brilhante carreira comercial. Casou pouco depois com a filha de um compatriota, já nascida aqui, e mais tarde fez-se cidadão brasileiro, não só no papel, como no coração. Do seu matrimônio, teve Carlos Hope, que seguia a carreira do pai, e contava 26 anos ao tempo em que começa este romance e uma filha, que recebeu o nome de Sara e tinha 22 anos.
Sara Hope era solteira. Por quê? A sua beleza era incontestável; reunia a graça brasileira à gravidade britânica, e em tudo parecia destinada a dominar os homens; a voz, o olhar, as maneiras, tudo possuía um misterioso condão fascinador. Além disto, era rica e ocupava uma invejável posição na sociedade. Dizia-se à boca pequena que algumas paixões havia já inspirado a interessante moça; mas não constava que ela as houvesse tido em sua vida.
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