Um Homem Superior
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
Após uma noite de insônia, saiu Clemente Soares da casa em que morava, à Rua da Misericórdia, e entrou a caminhar à toa pelas ruas da cidade.
Eram quatro horas da manhã.
Os homens do gás começavam a apagar os lampiões, e as ruas, ainda não bem alumiadas pela aurora, que apontava apenas, apresentavam um aspecto lúgubre. Clemente caminhava lento e pensativo. De quando em quando abalroava nele uma quitandeira que se dirigia para as praças do mercado com o cesto ou o tabuleiro à cabeça, acompanhada de um preto que levava outro cesto e a barraca. Clemente parecia despertar dos seus devaneios, mas recaía logo neles até nova interrupção.
À proporção que o céu clareava, abriam-se as portas dos botequins, para fazer concorrência aos vendedores de café ambulantes que desde a meia-noite percorriam a cidade em todos os sentidos. Ao mesmo tempo começavam a passar os trabalhadores dos arsenais atroando as ruas com os seus grossos tamancos. Não poucos entravam nos botequins e aqueciam o estômago.
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