Henrique Chaves
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Henrique Chaves é um desmentido a duas velhas superstições. Nasceu em dia 13 e sexta-feira. Não podia nascer pior, e, entretanto, é um dos homens felizes deste mundo. Em vez de ruins fadas, em volta do berço, cantando-lhe o coro melancólico dos caiporas, desceram anjos do céu, que lhe anunciaram muitas coisas futuras. Para os que nunca viram Lisboa, e têm pena, como o poeta, Henrique Chaves é ainda um venturoso: nasceu nela. Enfim, conta apenas quarenta e quatro anos, feitos em janeiro último.
Um dia, tinha apenas vinte anos, transportou-se de Lisboa ao Rio de Janeiro. Para explicar esta viagem, é preciso remontar ao primeiro consulado de César. Este grande homem, assumindo aquela magistratura, teve ideia de fazer publicar os trabalhos do senado romano. Não era ainda a taquigrafia; mas, com boa vontade, boa e muita, podemos achar ali o gérmen deste invento moderno. A taquigrafia trouxe Henrique Chaves ao Rio de Janeiro. Foi essa arte mágica de pôr no papel, integralmente, as ideias e as falas de um orador, que o fez atravessar o oceano, pelos anos de 1869.
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