Dante (Machado de Assis)
Machado de Assis (1839–1908)
O começo
Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo / As mãos em figas, deste modo brada: / «Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»
E desde então me foi a serpe amada, / Pois uma vi que o colo lhe prendia, / Como a dizer: «não falarás mais nada!»
Outra os braços na frente lhe cingia / Com tantas voltas e de tal maneira / Que ele fazer um gesto não podia.
Ah! Pistoia, por que numa fogueira / Não ardes tu, se a mais e mais impuros, / Teus filhos vão nessa mortal carreira?
Eu, em todos círculos escuros / Do inferno, alma não vi tão rebellada, / Nem a que em Thebas resvalou dos muros.
E ele fugiu sem proferir mais nada. / Logo um centauro furioso assoma / A bradar: « Onde, aonde a alma danada? »
Maremma não terá tamanha soma / De reptis quanta vi que lhe ouriçava / O dorso inteiro desde a humana coma.
Junto à nuca do monstro se elevava / De azas abertas um dragão que enchia / De rogo a quanto ali se aproximava.
« Aquele é Caco, — o Mestre me dizia, — / Que, sob as rochas do Aventino, ousado / Lagos de sangue tanta vez abria
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