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Confissões de uma Viúva Moça

Machado de Assis (1839–1908)

Contos34 min de leitura30 páginas

O começo — I

Há dous anos tomei uma resolução singular: fui residir em Petrópolis em pleno mês de Junho. Esta resolução abriu largo campo às conjecturas. Tu mesma, nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o espirito a adivinhar e figuraste mil razões, cada qual mais absurda.

A estas cartas, em que a tua solicitude traía a um tempo dous sentimentos, a afeição da amiga e a curiosidade de mulher, a essas cartas não respondi e nem podia responder. Não era oportuno abrir-te o meu coração nem desfiar-te a serie de motivos que me arredou da corte, onde as operas do teatro Lyrico, as tuas partidas e os serões familiares do primo Barroso deviam distrahir-me da recente viuvez.

Esta circunstância de viuvez recente acreditavão muitos que fosse o único motivo da minha fuga. Era a versão menos equivoca. Deixei-a passar como todas as outras e conservei-me em Petrópolis.

Logo no verão seguinte vieste com teu marido para cá, disposta a não voltar para a corte sem levar o segredo que eu teimava em não revelar. A palavra não fez mais do que a carta. Fui discreta como um tumulo, indecifrável como a Sphynge. Depuzeste as armas e partiste.

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