Um Ambicioso
Machado de Assis (1839–1908)
O começo — I
— Mas Juca, tu estás doente ou que é?
Esta pergunta era feita pelo sr. Mateus, com casa de louças à Rua da Saúde, a um filho seu, que ele foi encontrar, sentado numa mesa, com os pés sobre um mocho e os olhos cravados na parede.
Não era a primeira vez que José Cândido, filho do sr. Mateus, apresentava sintomas de melancolia ou forte preocupação. Havia duas semanas que o pai reparava na mudança do rapaz; e duas vezes lhe falou nisso; a primeira com ar indiferente, mas afetado; a segunda com algum interesse. A terceira vez, que foi agora, falou-lhe com a alma nas palavras, porque o sr. Mateus, viúvo e sem parentes, salvo uma prima, concentrara todo seu coração em José Cândido, seu filho único.
José Cândido andava já perto dos trinta anos; faltavam-lhe um ou dois meses. Era um rapaz de feições irregulares e de uma expressão alvar, sobretudo estando quieto. Não era magro nem gordo, alto nem baixo; mediano em tudo, exceto na inteligência, que era ínfima. Tinha uma particularidade José Cândido; gostava de gravatas amarelas. Em compensação detestava o trabalho. Vivia do que lhe dava o pai, que possuía a casa de louças, e uns cinco prédios; trinta contos ao todo.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.