Um Grande Egoísta
Amadeu Amaral (?–1929)
O começo
O meu amigo Heráclides, de ordinário benevolente, ia ontem azedo, no bonde. Observava exemplos de aspereza e grosseria de maneiras, aos quais via um sinal meteórico de barbarização, uma prova da decadência do senso de humanidade, que outrora a religião alumiava ainda nos mais incultos.
Heráclides apontou-me, sucessivamente, um passageiro que deixara de ceder lugar a uma senhora, apesar dos olhos compridos que ela deitava para o seu lado; um menor que se desarticulava no banco, como uma letra gótica, e soltava grossas baforadas de fumo na cara dos vizinhos; um cidadão bem trajado que disse dois desaforos ferinos ao condutor porque este se atrapalhara numa questão de troco, e um homem gordo, escarrapachado como uma foca, as perninhas roliças largamente jogadas para os lados, a direita a premir uma pobre moça, a esquerda, a bater no joelho de um velho magro, que fazia horríveis esforços por ocupar apenas a metade do espaço a que tinha direito e que lhe era necessário.
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